Ao longo dos três dias da Expo+Indústria 2026, o Stand do Senai recebeu mais de 5.900 visitantes. Programação reuniu experiências com inteligência artificial, gêmeos digitais, visão computacional, cibersegurança, redes industriais e tecnologias da Indústria 4.0, com estudantes no centro dessa transformação
Um molde de roupa deixou o papel e ganhou a tela do computador. Uma fábrica pôde ser modificada primeiro no ambiente virtual. Câmeras aprenderam a identificar características de produtos. Um computador quântico de dois qubits executou programas diante dos visitantes. Máquinas, sensores e sistemas trocaram informações enquanto especialistas discutiam como proteger e utilizar os dados que circulam por uma indústria cada vez mais conectada.
Durante os três dias da Expo+Indústria 2026, no Expotrade Convention Center, em Pinhais, tecnologias aparentemente distantes dividiram espaço na programação e no Stand do Senai Paraná, que recebeu a visita de mais de 5.900 pessoas. Juntas, porém, essas soluções inovadoras ajudaram a contar uma mesma história: a transformação industrial não acontece a partir de uma única tecnologia. Ela depende da integração entre equipamentos, sistemas e processos e, principalmente, de pessoas qualificadas para transformar essas ferramentas em produtividade, inovação e competitividade.
Foi essa relação entre tecnologia e formação que atravessou a participação do Senai na Expo+Indústria. Se algumas atrações mostraram soluções que já fazem parte da realidade da indústria, outras permitiram observar tecnologias que ainda começam a construir suas aplicações no ambiente produtivo. E, no meio delas, estudantes mostraram como esses conhecimentos chegam à educação profissional antes de encontrarem o chão de fábrica.
Quem apresenta a indústria do futuro também está se preparando para trabalhar nela
Para entender essa transformação, basta observar quem esteve do outro lado das demonstrações. Além de especialistas e técnicos de ensino, alunos do Senai participaram da Expo+Indústria apresentando aos visitantes tecnologias, projetos e experiências que fazem parte de sua própria formação.
Ana Júlia da Rocha Silva, medalhista de ouro na etapa estadual da WorldSkills na ocupação Indústria 4.0, passou os três dias apresentando a plataforma SMART 4.0, um laboratório didático que reúne tecnologias utilizadas pela indústria contemporânea, como robótica colaborativa, visão computacional, Internet Industrial das Coisas (IIoT), sistemas de gestão da produção, computação em nuvem, integração de sistemas, cibersegurança e gêmeos digitais. A proposta é justamente permitir que os estudantes aprendam a fazer essas diferentes tecnologias funcionarem de maneira integrada.
Para ela, estar na feira também se transformou em parte desse aprendizado.
“Eu estou aqui desde o primeiro dia e está sendo surreal. Eu sinto que estou ganhando muito conhecimento e uma experiência ótima de poder estar convivendo esses três dias aqui”, conta Ana Júlia.
A estudante já se prepara para outro desafio. Depois do ouro estadual, ela iniciou os treinamentos para a próxima etapa da WorldSkills, com uma rotina de 40 horas semanais que inclui o aprofundamento em conteúdos como redes e gêmeos digitais.
A competição mundial de profissões também esteve presente no Stand do Senai representada por Erán Martinez Ramos. Ex-aluno da instituição, ele se prepara para representar o Paraná e o Brasil na etapa mundial da WorldSkills, em Xangai, na China, na ocupação Mídias Digitais Interativas.
A preparação inclui criação de peças de design, pôsteres, vídeos e mídias interativas. Na Expo+Indústria, porém, Erán assumiu outro papel: explicar a competição para quem passava pelo espaço.
“Está sendo uma experiência muito gratificante estar aqui na Expo, apresentando para milhares de pessoas que passam pelo estande do Senai sobre a WorldSkills, sobre essa competição que é muito importante não só para o Brasil, mas para toda a área da indústria”, afirma.
Outra estudante levou para a feira um exemplo de como um desafio de aprendizagem pode partir de um desafio real da indústria. Esther Nunes da Cunha, aluna do Senai e jovem aprendiz em uma multinacional, integrou a equipe Reaja Tech, vencedora do Grand Prix Nacional de Inovação em um desafio proposto pela Vale.
A equipe desenvolveu uma solução baseada em inteligência artificial para identificar e classificar vazamentos em rolamentos de vagões, reduzindo o tempo necessário para a análise das imagens, anteriormente realizada de forma manual.
“A gente achou que não chegaria tão longe, mas a gente conseguiu. Com muito trabalho duro, esforço, é possível chegar até aqui”, conta Esther.
Os três exemplos ajudam a deslocar o olhar das máquinas para quem aprende a utilizá-las. Afinal, quando inteligência artificial, automação, redes industriais e sistemas digitais chegam à indústria, alguém precisa compreender como essas tecnologias funcionam, integrá-las aos processos e utilizá-las para solucionar problemas.
Três dias para percorrer diferentes estágios da transformação industrial
Essa relação apareceu desde o primeiro dia da Expo+Indústria. Na terça-feira (25), a programação começou pelo vestuário, quando alunos participaram de uma oficina de transferência de pences que levou conhecimentos de modelagem do papel para ferramentas digitais.
No mesmo dia, os visitantes conheceram aplicações de simulação computacional e gêmeos digitais, capazes de criar representações virtuais de sistemas produtivos e testar alterações antes que elas sejam implementadas fisicamente. A programação ainda colocou nas mãos dos participantes uma tecnologia em estágio muito diferente de maturidade: um computador quântico de dois qubits, utilizado em um workshop realizado em parceria com a Dobslit.
Na quarta-feira (26), a pergunta avançou da digitalização para os dados. A visão computacional mostrou como câmeras e sistemas de análise de imagens podem apoiar o controle de qualidade. A cibersegurança colocou em discussão a proteção das informações que passam a circular entre equipamentos e sistemas. Já a inteligência artificial generativa mostrou possibilidades de utilização dessas ferramentas em atividades profissionais de diferentes áreas.
A sequência formou uma espécie de mapa da transformação digital. Máquinas observam processos, sensores produzem informações, representações virtuais permitem simular fábricas, sistemas analisam dados e tecnologias digitais apoiam decisões. Mas, para que tudo isso funcione de maneira integrada, falta uma infraestrutura capaz de fazer essas diferentes partes conversarem.
Foi justamente esse o tema que ganhou espaço no terceiro dia.
Quando as máquinas começam a conversar
Na palestra “Redes Industriais Inteligentes”, nesta quinta-feira (27), o técnico de ensino do Senai Paraná Erielton Simões mostrou como as redes sustentam a comunicação entre máquinas, sensores, sistemas de controle e plataformas digitais.
À medida que a indústria avança em automação e digitalização, essas redes deixam de funcionar apenas como uma infraestrutura de conexão. Por elas circulam dados de produção, sinais de controle, informações de manutenção e indicadores utilizados para acompanhar processos e apoiar decisões. A discussão envolveu redes industriais, IoT industrial, integração entre ambientes OT e IT, SCADA, edge computing e integração de sistemas.
Para Erielton, essa infraestrutura ocupa uma posição central na Indústria 4.0.
“O grande ponto que eu diria que faz a conexão da Indústria 4.0 é justamente a rede, que possibilita interligarmos desde sistemas totalmente remotos a toda uma máquina de produção”, explica.
Segundo ele, essa integração pode contribuir para redução de custos, aumento de produtividade e maior capacidade de personalização dos equipamentos. Mas também exige profissionais que conheçam protocolos, configurações, cabeamento, tecnologias e formas de integrar diferentes sistemas.
E existe uma característica especialmente importante nesse profissional: acompanhar uma tecnologia que não permanece parada.
“Como a tecnologia é muito dinâmica, ela é muito evolutiva, ele precisa sempre estar se atualizando, acompanhando”, afirma Erielton.
A fala ajuda a conectar os três dias da feira. Da computação quântica às redes industriais, algumas tecnologias podem mudar, outras amadurecer e novas ferramentas certamente aparecerão. A formação profissional, portanto, precisa acompanhar esse movimento.
Uma escola que percorre o Paraná
No último dia da Expo+Indústria, os visitantes também puderam conhecer a Escola Móvel do Senai que permaneceu em exposição durante o evento. Nos dias anteriores, a estrutura havia recebido atividades como a oficina de modelagem digital e o workshop de computação quântica.
Fora da feira, porém, a mobilidade cumpre outra função: aproximar a educação profissional de diferentes regiões do Paraná.
Segundo Felipe Marcondes Carneiro, coordenador de Educação e Negócio das Ações Móveis do Senai Paraná, as unidades percorrem cerca de 310 dos 399 municípios paranaenses, levando qualificação em áreas como manutenção automotiva, confecção, automação e soldagem.
A estrutura ajuda a materializar uma das ideias que atravessaram a participação do Senai na Expo+Indústria: se as tecnologias utilizadas pela indústria estão mudando, o acesso à formação precisa acompanhar essa transformação e chegar até onde a indústria e os trabalhadores estão.
Tecnologia para experimentar
Nem toda a experiência no Stand do Senai aconteceu em formato de palestra. Ao longo da feira, algumas tecnologias convidaram os visitantes a interagir diretamente com elas.
Uma delas transformou visão computacional e robótica em uma partida de jogo da velha. Um robô colaborativo de cinco eixos utilizava uma câmera para reconhecer a posição das peças no tabuleiro, calcular a próxima jogada e movimentar-se para executá-la.
“Até agora aqui na feira ninguém conseguiu ganhar do robô”, contou o analista de negócios do Senai Paraná Ruan Gaspar Branco durante o evento.
Outra atração apontou para uma aplicação da realidade virtual na própria educação profissional. Um simulador de soldagem em desenvolvimento permitiu demonstrar uma proposta para que estudantes pratiquem antes de executar a solda real. O objetivo é ampliar a experiência prévia do aluno e, ao mesmo tempo, reduzir desperdícios de insumos e materiais metálicos durante o aprendizado.
A SMART 4.0 completou esse ambiente ao reunir, em escala didática, diferentes camadas de uma fábrica automatizada e digitalizada. Em vez de apresentar robótica, visão computacional, IoT, cibersegurança ou gêmeos digitais como universos separados, a plataforma permite observar justamente aquilo que a indústria exige cada vez mais: a integração entre eles.
No centro da transformação continuam as pessoas
Durante três dias de Expo+Indústria, câmeras ganharam novos olhos, fábricas puderam existir virtualmente antes de serem modificadas fisicamente, máquinas conversaram por redes industriais e até uma forma diferente de computação chegou às mãos dos visitantes.
Mas talvez uma das imagens mais representativas da participação do Senai Paraná na feira não estivesse apenas nos equipamentos.
Estava também nos estudantes que explicavam essas tecnologias para quem chegava ao estande.
Ana Júlia apresentando uma plataforma de Indústria 4.0 enquanto se prepara para a próxima etapa da WorldSkills. Erán compartilhando com milhares de visitantes uma competição para a qual treina antes de representar o Brasil na China. Esther mostrando uma solução desenvolvida por estudantes para um problema concreto apresentado pela indústria.
Se a Expo+Indústria permitiu enxergar uma fábrica progressivamente digital, conectada e orientada por dados, a participação desses alunos mostrou a outra parte dessa transformação. A indústria do futuro não depende apenas das tecnologias que chegarão ao chão de fábrica, mas das pessoas que estão aprendendo hoje a compreendê-las, integrá-las e utilizá-las para resolver os problemas de amanhã.



