Gabriel Henrique Gobato de Oliveira disputa a ocupação #53 Computação em Nuvem, área que sustenta parte da transformação digital da indústria

Olhe para o céu em um dia comum e você não vai ver nada de especial em uma nuvem. Ela estará lá parada e discreta, mas sustentando um sistema inteiro de água, temperatura e pressão que a gente nem percebe, até que ela se manifeste. É mais ou menos assim que funciona a nuvem que Gabriel Henrique Gobato de Oliveira cuida todos os dias. Só que ela fica em servidores, bancos de dados, redes e softwares espalhados pelo mundo. É a infraestrutura invisível que, hoje, sustenta praticamente tudo o que fazemos em aplicativos, sites ou empresas.

Gabriel é de Londrina, fez o curso Técnico em Desenvolvimento de Sistemas no Senai Paraná e compete na ocupação Computação em Nuvem da WorldSkills. A partir da próxima terça-feira (22) ele vai representar o Brasil na 48ª edição da WorldSkills Internacional, em Xangai, na China, a maior competição de profissões técnicas do mundo.

O que é, afinal, competir em nuvem

A ocupação de Gabriel pede que os competidores projetem e implementem infraestruturas tecnológicas em ambientes virtuais, unindo conhecimentos de redes, arquitetura de sistemas, bancos de dados e serviços em nuvem, tecnologias que vêm se consolidando como base da estratégia de transformação digital.

Ou seja, enquanto uma nuvem de verdade guarda água até a hora de liberá-la como chuva, a nuvem que Gabriel aprendeu a construir guarda dados, processamento e sistemas até a hora em que uma empresa precisa deles, instantaneamente, de qualquer lugar. É uma infraestrutura que ninguém vê, mas da qual quase tudo depende atualmente.

E o tamanho dessa nuvem não é pequeno. Afinal, 36% das empresas brasileiras com dez ou mais funcionários já pagavam por capacidade de processamento em nuvem em 2025 e 93% delas contavam com conexão de fibra óptica, a base física que sustenta esse tipo de operação, de acordo com dados da 16ª pesquisa TIC Empresas, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

E a tendência é que essa tecnologia cresça ainda mais. O Brasil deve investir até R$ 2 trilhões em investimentos tecnológicos até 2029, dos quais cerca de R$ 765,6 bilhões devem ir só para computação em nuvem, de acordo com o Relatório Setorial 2025 – Macrossetor de TIC, elaborado pela Brasscom – Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais.

No mercado de trabalho, a mesma instituição contabilizou 51.610 profissionais em ocupações de Tecnologia da Informação e Comunicação empregados no Paraná em dezembro de 2025, o que corresponde a 5,5% do total nacional, colocando o estado na sexta posição do país segundo o Relatório de Regionalização dos Empregos CLT de TIC.

A nuvem que se formou aos poucos

A trajetória de Gabriel até a nuvem começou em terreno firme. “Era algo que eu vinha me interessando depois que terminei o colégio. Eu não sabia se valia a pena entrar em uma faculdade logo de cara, porque eu poderia não gostar. Então acabei escolhendo o curso técnico em uma área que eu tinha interesse”, conta, sobre a decisão de entrar no curso Técnico em Desenvolvimento de Sistemas.

A formação, ele resume, ensina o essencial para depois se adaptar a qualquer contexto: “a gente aprende basicamente a modelar um sistema. Tem vários tipos de sistema que você pode fazer, mas a gente aprende uma receita básica que você adapta de acordo com as necessidades de quem vai precisar do sistema.”

Foi ainda no começo dessa formação que surgiu o convite para a WorldSkills e, com ele, um território completamente novo. “Entrei no curso no começo 2024. Era uma área que eu tinha interesse, mas não sabia nada. Em abril [daquele ano], surgiu a oportunidade de participar da WorldSkills e eu entrei. Também não sabia nada do que era computação em nuvem, aprendi tudo do zero”, diz.

Construir essa nuvem exigiu uma rotina dividida entre o curso técnico e o treinamento. “Comecei a me preparar para o nacional desde o final de 2024. Vinha fazendo o treinamento paralelo com o curso: ficava o dia inteiro no Senai, fazendo o curso e o treinamento da WorldSkills. Foi bem puxado, bem difícil”, relembra.

A dedicação deu resultado: em 2025 Gabriel conquistou a medalha de ouro na etapa nacional da WorldSkills e a consequente representação do Brasil na etapa mundial.

A tradição que vem de Londrina

Gabriel não é o primeiro nome de Londrina a construir uma nuvem forte o bastante para chegar ao mundial. Quem abriu esse caminho foi Leandro Ribeiro Moreira.

Para ele, o caminho até o pódio não foi direto. “Participei de diversos processos na WorldSkills desde a etapa estadual e fiquei em segundo lugar, em um primeiro momento”, relembra. A virada veio com o surgimento da Computação em Nuvem. “Apareceu uma nova oportunidade em 2018, quando a modalidade de computação em nuvem estava surgindo, que é também uma nova área da indústria, e eu fui selecionado para representar o Paraná na competição.” Depois de meses de preparo, ele venceu a etapa nacional e foi selecionado como representante brasileiro na etapa mundial, realizada em 2019 em Kazan, na Rússia. “Lá tiveram diversos desafios em quatro dias de prova com diversos obstáculos, mas o resultado foi excelente: eu consegui o segundo lugar, medalha de prata.”

Para Leandro, o que o Senai e a WorldSkills representaram na carreira vai além do pódio: “o Senai já traz um diferencial para você no mercado de trabalho, mas a WorldSkills potencializa isso muito mais. Porque em poucos meses você aprende e estuda tecnologias e informações que demorariam anos, muitas vezes, para um profissional aprender.” Hoje, formado e com carreira consolidada na área, ele resume aonde chegou: “consegui um emprego na área de infraestrutura, em computação em nuvem também. Hoje em dia sou responsável por toda a área de segurança e infraestrutura de uma fintech aqui no Brasil.”

E foi esse mesmo Leandro quem ajudou a formar Gabriel. “Londrina está representada mais uma vez no mundial na computação em nuvem através do Gabriel. Para mim é uma satisfação muito grande ter aberto esse caminho para ele, e também ter ajudado no processo de treinamento dele, junto com os outros professores”, diz.

Depois de Leandro, o também londrinense Thiago Rocha de Araújo representou o Brasil na edição seguinte, disputada em Lyon, na França, em 2024. Gabriel é a continuação dessa sequência, uma cidade que, ocupação após ocupação, segue formando quem vai cuidar da infraestrutura invisível da indústria.

O que sustenta quem sustenta a nuvem

Por trás da tela de comandos, Gabriel se descreve como qualquer um: “sou um cara bem quieto. Gosto de jogar videogame, gosto de academia, ficar com a minha família, meus amigos. Um cara normal.” E é justamente essa base composta pela família, rotina e apoio que ele credita como parte do que sustenta tudo o mais.

Sobre o que vem depois do curso técnico já concluído, a resposta dada na ocasião em que recebeu a medalha de ouro na etapa nacional da WorldSkills é direta: seguir subindo. “O Senai me proporcionou tudo isso que eu estou vivendo hoje. Já terminei o curso, mas agora é continuar no treinamento da WorldSkills. Pensar em fazer uma faculdade, por enquanto, ainda não sei. Agora é trabalhar mais duro ainda e me preparar para o ano que vem.”

Rumo a Xangai

O “ano que vem” de Gabriel já chegou. Ele estará ao lado dos mais de 1.400 competidores de mais de 70 países na WorldSkills Xangai 2026. Entre eles, a delegação brasileira também conta com os paranaenses Davi da Silva Aleixo Ignacio (Construção em Alvenaria), Erán Martínez Ramos (Design de Mídias Digitais Interativas), Kaique William Ventura Camacho (Tecnologia Optoeletrônica) e Kauan Henrique Martinello Nazario (Tecnologia Automotiva).

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