Da união de chapas metálicas à integração de sistemas inteligentes, a WorldSkills mostra como profissões tradicionais e tecnologias emergentes trabalham juntas para construir a indústria de hoje
Há quem imagine a indústria como um lugar feito apenas de chapas metálicas, máquinas pesadas e o clarão de uma solda iluminando o ambiente de produção.
Há também quem pense no extremo oposto: robôs colaborativos, inteligência artificial, computação em nuvem e sistemas totalmente conectados.
A verdade é que essas duas imagens não competem entre si. Elas convivem. E talvez nenhum lugar mostre isso tão bem quanto a WorldSkills, maior competição de educação profissional do mundo.
Nas provas da etapa estadual, um competidor pode passar o dia executando soldas em aço carbono, alumínio e aço inoxidável, enquanto, em outra bancada, uma equipe integra sensores, robôs industriais e softwares capazes de transformar uma linha de produção em uma fábrica inteligente.
É a mesma indústria.
A profissão que atravessa gerações
Entre todas as ocupações da WorldSkills, poucas representam tão bem a história da indústria quanto a soldagem.
Muito antes de se falar em transformação digital, manufatura avançada ou Internet das Coisas, já eram os soldadores que uniam estruturas metálicas responsáveis por construir fábricas, pontes, navios, plataformas, veículos e equipamentos industriais.
E isso continua sendo verdade.
“O mercado de trabalho de soldagem é extremamente abrangente, porque a solda está em todo o setor produtivo”, explica Felipe Mocelin de Castro, avaliador líder da ocupação #10 Soldagem. Segundo ele, a demanda não se restringe à indústria metalmecânica. Construção civil, montagem industrial e até trabalhos especializados realizados por profissionais autônomos dependem dessa competência.
Na WorldSkills, essa importância aparece refletida na própria prova.
Os competidores executam diferentes processos de soldagem em materiais como aço carbono, alumínio e aço inoxidável. As peças passam por avaliações dimensionais, inspeções visuais, ensaios destrutivos e não destrutivos e testes de estanqueidade em vasos de pressão, reproduzindo situações encontradas na indústria.
É um trabalho em que milímetros fazem diferença.
Agora imagine essa mesma fábrica…
Agora imagine que essa mesma estrutura metálica soldada faz parte de uma linha de produção automatizada.
Sensores monitoram cada etapa. Robôs movimentam peças. Softwares organizam a produção. Dados são enviados para a nuvem. O gestor acompanha tudo em tempo real.
É exatamente nesse cenário que entra a ocupação Indústria 4.0.
Ela representa uma das maiores mudanças vividas pelo setor produtivo nas últimas décadas: deixar de enxergar máquinas, softwares e pessoas como elementos separados para integrá-los em um único sistema.
“A Indústria 4.0 é responsável por integrar os sistemas. Ela faz a ligação entre a tecnologia da informação da empresa e os equipamentos da fábrica, permitindo a coleta de dados e a comunicação entre diferentes sistemas”, explica Maicon Carlos Pelissaro Pasin, avaliador líder da ocupação e desenvolvedor da Exxer, empresa responsável pela bancada utilizada na competição.
A prova acontece sobre a plataforma SMART 4.0 Modular, um laboratório didático que reúne tecnologias utilizadas pela indústria contemporânea em um sistema flexível de manufatura.
Nele, os competidores trabalham com robótica colaborativa, visão computacional, Internet Industrial das Coisas (IIoT), sistemas de gestão da produção (MES), computação em nuvem, integração de sistemas, virtualização, cibersegurança e gêmeos digitais. Em vez de aprender cada tecnologia isoladamente, precisam fazê-las funcionar como um único organismo.
Embora desenvolvida para fins educacionais, a bancada usa componentes industriais reais, permitindo que os desafios reproduzam situações encontradas nas fábricas. “Todos os componentes podem ser usados na indústria. O diferencial está justamente na integração entre automação e tecnologia da informação”, resume Maicon.
O caminho nem sempre é linear
Curiosamente, quem disputa uma ocupação tão tecnológica nem sempre começou pensando em trabalhar com automação. É o caso de Ana Júlia da Rocha Silva.
Ela entrou no curso Técnico em Mecânica Industrial do Senai Paraná praticamente por curiosidade e lá encontrou um novo caminho para a sua carreira profissional.
“Antes de entrar para o Senai, nunca tinha passado pela minha cabeça ingressar na área industrial”, conta. Foi durante o curso que descobriu afinidade com esse universo e decidiu seguir carreira na indústria.
O convite para competir na ocupação Indústria 4.0 surgiu justamente por causa do seu desempenho em uma aula de solda.
Um professor percebeu sua facilidade de aprendizagem e a indicou para integrar a equipe de Indústria 4.0 que disputa a WorldSkills.
A mudança parecia improvável. Enquanto Mecânica Industrial trabalha diretamente com processos mecânicos, a nova ocupação exigia programação, integração de sistemas e automação.
Mesmo apreensiva, ela aceitou o desafio. Hoje, já considera seguir estudando automação no futuro e resume sua experiência na WorldSkills em uma única palavra: disciplina.
Não existe indústria do futuro sem a indústria de sempre
À primeira vista, Soldagem e Indústria 4.0 parecem pertencer a mundos diferentes.
Mas basta observar uma fábrica moderna para perceber que elas fazem parte da mesma engrenagem.
Antes de um robô soldar uma estrutura, alguém precisou projetar a célula automatizada. Além disso, o monitoramento de uma linha de produção feito por um sistema em nuvem se tornou possível graças à instalação de máquinas, sensores e equipamentos. De maneira semelhante, para que dados circulem pela rede, existe um processo físico acontecendo.
A indústria do futuro não substituiu as profissões tradicionais. Ela as conectou a novas tecnologias. É justamente essa convivência que a WorldSkills coloca diante dos olhos de quem acompanha a competição.
De um lado, profissões que continuam sendo indispensáveis há décadas. Do outro, ocupações que nasceram para responder aos desafios da transformação digital.
No meio delas, milhares de possibilidades para quem deseja construir uma carreira na indústria.
Porque, na prática, a indústria não escolheu entre a solda e a Indústria 4.0.
Ela precisa das duas.



